Entrevistas e Reportagens



Reportagem realizada em Junho de 2004

 

Começar de Novo




Herval Rossano inicia nova etapa da sua carreira, na Record, e tem pela frente a pedregosa missão de fazer uma novela, Escrava Isaura, dar certo fora do maior quartel-general da ficção, a TV Globo, emisora na qual permaneceu por 30 anos, entre idas e vindas, e da qual foi dispensado em julho do ano passado. O desafio é duplo. Primeiro porque a Record vem de uma experiencia no gênero, até o momento, malsucedida do Ibope: a novela Metamorphoses, uma co-produção com a produtora Casablanca que dá 3 pontos de média. Segundo, porque Escrava Isaura foi sucesso na telinha da Globo en 1976, aliás sob a batuta do própio Rossano, e, até hoje, é a novela brasileira mais vendida para o mercado internacional.

Prevista para estrear no segundo semestre, a nova versão de Escrava Isaura inaugura também uma nova fase na teledramaturgia da Record. Depois de uma breve parceria com a produtora Casablanca, responsável pela série A Turma do Gueto e pela novela Metamorphoses, a emissora volta a produzir as próprias novelas. "Reconheço que o projeto é ambicioso, mas hoje disponho de mais recursos do que há 26 anos. Tenho condições de fazer uma novela tão boa quanto, senão melhor. Eu não sugeriria o 'remake' senão acreditasse nele", garante Herval.

Para escrever a nova versão de Escrava Isaura, Herval convidou a autora teatral Ana Maria Nunes, de Geração Trianon e Bate Outra Vez, entre outras. O anúncio do "remake" não surpreendeu Gilberto Braga, responsável pela versão original. "Achei natural. Sempre pensei que, algum dia, este 'remake' seria feito", observa ele. Quanto ao elenco, o diretor ainda não deu início ao processo de seleção. Confirmado mesmo estão os atores: Patrícia França, Jackson Antunes, Jona Mello, Mayara Magri, Silvia Bandeira, Miriam Mehler, Rubens de Falco, Paulo Figueiredo, Caio Junqueira, Fábio Junqueira, Norma Blum, Cláudio Curi, Téo Becker, André Fusco.

Na nova versão, porém, Herval ainda não sabe se vai escalar uma atriz experiente ou lançar outro rosto novo. "Quero dispor de meu prestígio para agregar bons valores para a Record", tergiversa.

Herval está mais do que confiante no sucesso de Escrava Isaura. "Há duas gerações que ainda não viram Escrava Isaura. Para esses telespectadores, a história continua inédita", raciocina Herval.

 

 

 

Entrevista realizada em Junho de 2004

 

  • Após 30 anos de Rede Globo, agora você inicia um novo ciclo em sua carreira. Foi doloroso deixar a emissora onde você assinou tantos sucessos?

    Sempre é doloroso um afastamento de qualquer lugar em que vc teve a oportunidade de realizar bons trabalhos e deixar alguns amigos.
  • Sua briga teve algo a ver mesmo com a remake de Cabocla ou o clima já não estava bom entre você e a emissora?

    Absolutamente. O remake de Cabocla é posterior a minha saída.
  • Você foi até a Record ou o convite partiu da emissora?

    O Hélio Vargas entrou em contato comigo e entre outros diretores, fui o escolhido.
  • Algum tipo de receio em recomeçar? Dá aquele friozinho na barriga como se estivesse entrando num palco como ator?

    Sempre dá, mas a verdade é que sou um profissional que sempre me sinto reiniciando.
  • Quais são os pontos negativos e positivos de trabalhar em uma emissora com pouca tradição em telenovelas atualmente?

    Não existem pontos negativos e sim muitos positivos, pois adoro desafios.
  • A estrutura que lhe era dada pela Globo, não vai faltar na Record?

    Sinto que estão me ajudando o máximo, com toda boa vontade.
  • Com o sucesso estrondoso de Escrava Isaura em todo o mundo, qual será o seu maior desafio em colocá-la novamente no ar?

    Fazer uma nova versão já é tratar de fazer melhor do que a original, principalmente com os recursos tecnologicos que me proporciona a Rede Record.
  • O compromisso com o sucesso o assusta?

    É desafiante!
  • Com certeza as pessoas irão ficar curiosas em ver essa nova versão. O que você pretende fazer para segurar os telespectadores diante da tela da Record?

    Dar a eles todos os ingredientes emocionais de uma boa novela, com a ajuda de bons autores e atores.
  • Sua intenção vai ser incomodar a Globo?

    Eu já incomodei uma vez com a novela Dona Beja, porque não uma outra vez?
  • Se conseguir, vai valer como uma vingança?

    A vingança, assim como a palavra impossível não existem no meu dicionário.
  • Quais os nomes já definidos no elenco?

    Patrícia França, Jackson Antunes, Jona Mello, Mayara Magri, Silvia Bandeira, Miriam Mehler, Rubens de Falco, Paulo Figueiredo, Caio Junqueira, Fábio Junqueira, Norma Blum, Cláudio Curi, Téo Becker, André Fusco .
  • Na época, Lucélia Santos foi lançada na novela e deu mais do que certo. Vai ser difícil substituir o carisma da escrava original?

    O carisma está na personagem Isaura, desejo que a A ATRIZ QUE FOR ESCOLHIDA tenha o mesmo sucesso que a Lucélia.
  • Como você encara a briga das emissoras pela audiência? Ela prejudica o processo criativo, já que muitas apelam para a baixaria?

    Acho que a televisão tem entrada livre em todas as casas, por isso abomino a baixaria, mas para a felicidade daqueles que como eu não gostam dessa baixaria, existe o controle remoto.
  • Como foi a experiência de produzir Vale Tudo para o mercado latino?

    Não tenho boas recordações, pois não fui ouvido na época, quando alertei sobre as deficiências, e depois ao ter um enfarte não participei da realização.
  • É verdade que esse episódio foi um dos motivos do seu enfarte?

    Acredito que ajudou
  • Como você está de saúde atualmente?

    Muito bem.
  • Profissionalmente valeu a pena passar uma temporada no Chile?

    O Chile para mim é como minha segunda pátria, tive muito orgulho de trabalhar várias vêzes na televisão chilena assim como me orgulho de haver trabalhado na televisão mexicana. Mas a verdade é que dentro do meu coração sempre há uma onda mais forte de brasileirismo.
  • Seu filho Herval está seguindo os mesmos passos naquele país?

    Meu filho é atualmente considerado o melhor diretor da televisão latina e isso me é muito gratificante, pois está vencendo sem nenhuma proteção paterna. 
  • O que você acha das novelas que estão no ar? A Globo continua absoluta?

    Não posso opinar sobre as que estão no ar atualmente, pois minha dedicação no momento é exclusiva para a preparação da "Escrava Isaura".
  • Muitos autores têm reclamado do longo período das novelas, que às vezes ficam 10 meses no ar. O que pode mudar para alterar esse quadro? Dá para encurtar as tramas e mesmo assim pagar os custos de produção?

    A televisão brasileira chegou a um grau de produção tão sofisticada, que acho difícil diminuir a quantidade de capítulos. O trabalho do autor será sempre muito solitário e exaustivo.
  • Qual a sua opinião sobre Metamorphoses, a novela da Record?

    Infelizmente não posso opinar, pois nunca vi um capítulo.
  • Você se preocupava com a beleza na época que era considerado galã?

    Claro! Sempre fui muito vaidoso.
  • Como você vê os galãs de hoje?

    Bonitos e vaidosos.
  • Qual o seu autor preferido? Gostaria de levar algum global para a Record?

    Já trouxe um autor global de meu máximo respeito e minha maior admiração, que é o Tiago Santiago, pois sempre soube do seu talento dentro da Rede Globo, assim como o de Ana Maria Nunes.
  • Com tantos trabalhos ao longo da carreira, deu para se dedicar aos filhos??

    Mais ou menos, sempre trabalhei demais e os meus três filhos do primeiro casamento conviveram pouco comigo, porque viviam em outro país, mas hoje já temos mais contato e mais amizade. Quanto a minha filha do segundo casamento, que teve mais a minha presença, existe o mesmo carinho.
  • Você não gosta de falar do fim do casamento com a atriz Nívea Maria. Ficou alguma mágoa da relação?

    Não me lembro nem dos bons, nem dos maus momentos.
  • Após duas separações, você pensa em se casar novamente?

    E porque não? Tenho pensado muito nisso ultimamente.
  • Em pouco tempo você passou por muitas transformações (enfarte, separação, mudança de emissora). O que está mudando em sua vida?

    Tudo, um recomeço pessoal e profissional, no qual eu tenho me sentido muito forte e feliz .

 

 

 

Um bate-papo virtual realizado em 1998.

 

  • Ao longo de sua carreira, qual foi a novela que você mais gostou de dirigir?

    Indiscutivelmente, "Maria Maria". Pelo texto, pela dificuldade de realização e pela oportunidade de aprender tudo o que aprendi.
  • Atualmente, as novelas e seriados mais educam ou deseducam ?

    Eu acho que atualmente elas deseducam mais do que educam. Mas acredito que a própria televisão está ciente dessa responsabilidade e encontrará um denominador comum. Nós vivemos muitos anos massacrados pela censura, que nos obrigava a passar por cima de coisas que gostaríamos de abordar. Com a abertura, acabamos extrapolando. Eu, por exemplo, fui o primeiro a colocar a Maitê Proença nua em "Dona Beija". Falta agora encontrar o equilíbrio.
  • Porque a novela é uma paixão nacional?

    A novela, na verdade, é uma paixão mundial. Antes de existir a novela, era a rádio-novela, que todo mundo ouvía. Antes, os boletins e as histórias em quadrinhos. É o mundo da ilusão. Um cubano "inventou" o "Direito de Nascer", que foi um estrondoso sucesso. Desde então, o mundo inteiro gosta de novelas.
  • Apesar das críticas, a dramaturgia brasileira gera excelentes novelas e seriados. Como explicar o bom padrão cultural destes produtos?

    A maioria das novelas exportadas foram de época. Elas saíram para outros países porque há uma curiosidade muito grande sobre o comportamento da sociedade brasileira. Como os acontecimentos sociais de uma época são muito parecidos em quase todos os países, há esta curiosidade de saber como era no Brasil.
  • Você cita as novelas de Ilza Silveira como exemplo de improviso e recriação. Essas novelas, possuíam uma estrutura aberta, a exemplo de algumas novelas da TV Globo?

    Não. Era aberta na forma do diálogo, na possibilidade de improviso por parte dos atores em determinadas falas. Mas jamais se afastava do conteúdo. A única vez que ocorreu a alteração da linha dramatúrgica de uma novela aconteceu sob a minha direção. Não entendi o que a autora escreveu e no final de um capítulo matei um personagem por engano. Para dar mais ênfase à cena, mandei o Dary Reis levantar a cabeça do "falecido" e dizer: "morto". Como era ao vivo, não foi uma situação muito agradável. Quanto à novela "aberta", não acredito muito nisto.
  • Você passou pelo Cinema e pelo Teatro antes de optar pela Televisão. Qual a influência de maior predominância?

    Acredito que a maior influência veio do Cinema, no sentido da imagem. Não acho que o teatro influa muito na televisão. Eu vejo uma grande semelhança entre a televisão e o rádio. Quando você começa a se interessar por televisão percebe que o telespectador não fica todo o tempo olhando o vídeo. Somente ouve. Por exemplo, não conheço ninguém que tire os olhos da televisor se houver um close-up. Então, se tenho que contar uma história através da imagem, não abro o plano a partir daquele momento.
  • Em termos de produção, direção e técnica, o que você destacaria como curioso nos primeiros momentos da história da televisão?

    Naquela época, o que mais se destacava eram os trabalhos individuais: o câmera-man, o sonoplasta, o diretor de TV, o ator, porque tudo era um verdadeiro "Deus nos acuda". Quando eu dizia: "no ar !", aquele sinal era igual ao gongo de um ringue. Você tinha que se defender de tudo porque era o público de um lado e o atacante do outro.
  • Haviam muitas dificuldades de produção?

    No figurino, por exemplo, cada um levava a sua roupa. Somente o figurino de época era fornecido pela emissora. Mas era uma ou duas peças no máximo. A cenografia era muito pobre, sem recurso mesmo. Claro que as portas se abriam e a maçaneta não ficava na sua mão. Mas o conceito criativo de cenografia era nulo. Aliás, estes conceitos nasceram depois. Até mesmo a maquiagem mudou muito. Geralmente, os próprios atores se maquiavam e exageravam um pouco. No preto e branco, as mulheres ficavam bonitas com a maquiagem carregada. Já com a cor, podia ser bem menos. Era muito comum você encontrar nos corredores as mulheres muito maquiadas, cheias de sombra aqui, branco ali, marrom acolá, uma coisa estranhíssima.
  • Na sua opinião, quais seriam os marcos da telenovela brasileira?

    Eu estava fora do Brasil quando se fez o "Beto Rockfeller", que dizem ter sido o marco da telenovela brasileira. Só vi dois capítulos e não deu para ter uma idéia. Para mim, falta consolidar o que é o caminho exato da telenovela brasileira. Veja bem, uma das novelas que eu reputo que não foi boa, realizada por mim, é o maior sucesso no mundo inteiro: "A Escrava Isaura". Por que ? Porque é uma novela totalmente brasileira. A telenovela não pode perder o romance para não deixar de fazer sucesso; o quem vai casar com quem, quem vai ficar com quem. É do folhetim que as pessoas gostam. O mau tem que fazer uma maldade em cada capítulo, senão ele não é mau. O bom tem que ser a vítima a cada capítulo. Já bastam as várias concessões que temos que fazer, como o "raio" do merchandising".
  • Você acha que atualmente a telenovela já possui uma identidade própria?

    Acho que ainda falta uma identidade própria. Mas isto é discutível porque lá fora as telenovelas fazem um enorme e inegável sucesso.