- Após 30
anos de Rede Globo, agora você inicia um novo ciclo
em sua carreira. Foi doloroso deixar a emissora onde
você assinou tantos sucessos?
Sempre é doloroso um
afastamento de qualquer lugar em que vc teve a
oportunidade de realizar bons trabalhos e deixar alguns
amigos.
- Sua briga teve
algo a ver mesmo com a remake de Cabocla ou o clima
já não estava bom entre você e a
emissora?
Absolutamente. O remake de
Cabocla é posterior a minha
saída.
- Você foi
até a Record ou o convite partiu da emissora?
O Hélio Vargas entrou em
contato comigo e entre outros diretores, fui o
escolhido.
- Algum tipo de
receio em recomeçar? Dá aquele friozinho na
barriga como se estivesse entrando num palco como
ator?
Sempre dá, mas a verdade
é que sou um profissional que sempre me sinto
reiniciando.
- Quais são
os pontos negativos e positivos de trabalhar em uma
emissora com pouca tradição em telenovelas
atualmente?
Não existem pontos
negativos e sim muitos positivos, pois adoro
desafios.
- A estrutura que
lhe era dada pela Globo, não vai faltar na
Record?
Sinto que estão me
ajudando o máximo, com toda boa
vontade.
- Com o sucesso
estrondoso de Escrava Isaura em todo o mundo, qual
será o seu maior desafio em colocá-la
novamente no ar?
Fazer uma nova versão
já é tratar de fazer melhor do que a
original, principalmente com os recursos tecnologicos que
me proporciona a Rede Record.
- O compromisso com
o sucesso o assusta?
É
desafiante!
- Com certeza as
pessoas irão ficar curiosas em ver essa nova
versão. O que você pretende fazer para
segurar os telespectadores diante da tela da Record?
Dar a eles todos os
ingredientes emocionais de uma boa novela, com a ajuda de
bons autores e atores.
- Sua
intenção vai ser incomodar a Globo?
Eu já incomodei uma vez
com a novela Dona Beja, porque não uma outra vez?
- Se conseguir, vai
valer como uma vingança?
A vingança, assim como a
palavra impossível não existem no meu
dicionário.
- Quais os nomes
já definidos no elenco?
Patrícia França,
Jackson Antunes, Jona Mello, Mayara Magri, Silvia
Bandeira, Miriam Mehler, Rubens de Falco, Paulo
Figueiredo, Caio Junqueira, Fábio Junqueira, Norma
Blum, Cláudio Curi, Téo Becker,
André Fusco .
- Na época,
Lucélia Santos foi lançada na novela e deu
mais do que certo. Vai ser difícil substituir o
carisma da escrava original?
O carisma está na
personagem Isaura, desejo que a A ATRIZ QUE FOR ESCOLHIDA
tenha o mesmo sucesso que a Lucélia.
- Como você
encara a briga das emissoras pela audiência? Ela
prejudica o processo criativo, já que muitas
apelam para a baixaria?
Acho que a televisão tem
entrada livre em todas as casas, por isso abomino a
baixaria, mas para a felicidade daqueles que como eu
não gostam dessa baixaria, existe o controle
remoto.
- Como foi a
experiência de produzir Vale Tudo para o mercado
latino?
Não tenho boas
recordações, pois não fui ouvido na
época, quando alertei sobre as deficiências,
e depois ao ter um enfarte não participei da
realização.
- É verdade
que esse episódio foi um dos motivos do seu
enfarte?
Acredito que ajudou
- Como você
está de saúde atualmente?
Muito bem.
- Profissionalmente
valeu a pena passar uma temporada no Chile?
O Chile para mim é como
minha segunda pátria, tive muito orgulho de
trabalhar várias vêzes na televisão
chilena assim como me orgulho de haver trabalhado na
televisão mexicana. Mas a verdade é que
dentro do meu coração sempre há uma
onda mais forte de brasileirismo.
- Seu filho Herval
está seguindo os mesmos passos naquele
país?
Meu filho é atualmente
considerado o melhor diretor da televisão latina e
isso me é muito gratificante, pois está
vencendo sem nenhuma proteção
paterna.
- O que você
acha das novelas que estão no ar? A Globo continua
absoluta?
Não posso opinar sobre
as que estão no ar atualmente, pois minha
dedicação no momento é exclusiva
para a preparação da "Escrava
Isaura".
- Muitos autores
têm reclamado do longo período das novelas,
que às vezes ficam 10 meses no ar. O que pode
mudar para alterar esse quadro? Dá para encurtar
as tramas e mesmo assim pagar os custos de
produção?
A televisão brasileira
chegou a um grau de produção tão
sofisticada, que acho difícil diminuir a
quantidade de capítulos. O trabalho do autor
será sempre muito solitário e
exaustivo.
- Qual a sua
opinião sobre Metamorphoses, a novela da
Record?
Infelizmente não posso
opinar, pois nunca vi um capítulo.
- Você se
preocupava com a beleza na época que era
considerado galã?
Claro! Sempre fui muito
vaidoso.
- Como você
vê os galãs de hoje?
Bonitos e vaidosos.
- Qual o seu autor
preferido? Gostaria de levar algum global para a
Record?
Já trouxe um autor
global de meu máximo respeito e minha maior
admiração, que é o Tiago Santiago,
pois sempre soube do seu talento dentro da Rede Globo,
assim como o de Ana Maria Nunes.
- Com tantos
trabalhos ao longo da carreira, deu para se dedicar aos
filhos??
Mais ou menos, sempre trabalhei
demais e os meus três filhos do primeiro casamento
conviveram pouco comigo, porque viviam em outro
país, mas hoje já temos mais contato e mais
amizade. Quanto a minha filha do segundo casamento, que
teve mais a minha presença, existe o mesmo
carinho.
- Você
não gosta de falar do fim do casamento com a atriz
Nívea Maria. Ficou alguma mágoa da
relação?
Não me lembro nem dos
bons, nem dos maus momentos.
- Após duas
separações, você pensa em se casar
novamente?
E porque não? Tenho
pensado muito nisso ultimamente.
- Em pouco tempo
você passou por muitas transformações
(enfarte, separação, mudança de
emissora). O que está mudando em sua vida?
Tudo, um recomeço
pessoal e profissional, no qual eu tenho me sentido muito
forte e feliz .
 
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Um bate-papo
virtual realizado em 1998.
  
- Ao longo
de sua carreira, qual foi a novela que
você mais gostou de dirigir?
Indiscutivelmente,
"Maria Maria". Pelo texto, pela dificuldade de
realização e pela oportunidade de
aprender tudo o que aprendi.
- Atualmente,
as novelas e seriados mais educam ou deseducam
?
Eu acho que atualmente
elas deseducam mais do que educam. Mas acredito
que a própria televisão
está ciente dessa responsabilidade e
encontrará um denominador comum.
Nós vivemos muitos anos massacrados pela
censura, que nos obrigava a passar por cima de
coisas que gostaríamos de abordar. Com a
abertura, acabamos extrapolando. Eu, por
exemplo, fui o primeiro a colocar a Maitê
Proença nua em "Dona Beija". Falta agora
encontrar o equilíbrio.
- Porque a
novela é uma paixão nacional?
A novela, na verdade,
é uma paixão mundial. Antes de
existir a novela, era a rádio-novela, que
todo mundo ouvía. Antes, os boletins e as
histórias em quadrinhos. É o mundo
da ilusão. Um cubano "inventou" o
"Direito de Nascer", que foi um estrondoso
sucesso. Desde então, o mundo inteiro
gosta de novelas.
- Apesar
das críticas, a dramaturgia brasileira
gera excelentes novelas e seriados. Como
explicar o bom padrão cultural destes
produtos?
A maioria das novelas
exportadas foram de época. Elas
saíram para outros países porque
há uma curiosidade muito grande sobre o
comportamento da sociedade brasileira. Como os
acontecimentos sociais de uma época
são muito parecidos em quase todos os
países, há esta curiosidade de
saber como era no Brasil.
- Você
cita as novelas de Ilza Silveira como exemplo de
improviso e recriação. Essas
novelas, possuíam uma estrutura aberta, a
exemplo de algumas novelas da TV Globo?
Não. Era aberta
na forma do diálogo, na possibilidade de
improviso por parte dos atores em determinadas
falas. Mas jamais se afastava do
conteúdo. A única vez que ocorreu
a alteração da linha
dramatúrgica de uma novela aconteceu sob
a minha direção. Não
entendi o que a autora escreveu e no final de um
capítulo matei um personagem por engano.
Para dar mais ênfase à cena, mandei
o Dary Reis levantar a cabeça do
"falecido" e dizer: "morto". Como era ao vivo,
não foi uma situação muito
agradável. Quanto à novela
"aberta", não acredito muito
nisto.
- Você
passou pelo Cinema e pelo Teatro antes de optar
pela Televisão. Qual a influência
de maior predominância?
Acredito que a maior
influência veio do Cinema, no sentido da
imagem. Não acho que o teatro influa
muito na televisão. Eu vejo uma grande
semelhança entre a televisão e o
rádio. Quando você começa a
se interessar por televisão percebe que o
telespectador não fica todo o tempo
olhando o vídeo. Somente ouve. Por
exemplo, não conheço
ninguém que tire os olhos da televisor se
houver um close-up. Então, se
tenho que contar uma história
através da imagem, não abro o
plano a partir daquele momento.
- Em termos
de produção, direção
e técnica, o que você destacaria
como curioso nos primeiros momentos da
história da televisão?
Naquela época,
o que mais se destacava eram os trabalhos
individuais: o câmera-man, o sonoplasta, o
diretor de TV, o ator, porque tudo era um
verdadeiro "Deus nos acuda". Quando eu dizia:
"no ar !", aquele sinal era igual ao gongo de um
ringue. Você tinha que se defender de tudo
porque era o público de um lado e o
atacante do outro.
- Haviam
muitas dificuldades de
produção?
No figurino, por
exemplo, cada um levava a sua roupa. Somente o
figurino de época era fornecido pela
emissora. Mas era uma ou duas peças no
máximo. A cenografia era muito pobre, sem
recurso mesmo. Claro que as portas se abriam e a
maçaneta não ficava na sua
mão. Mas o conceito criativo de
cenografia era nulo. Aliás, estes
conceitos nasceram depois. Até mesmo a
maquiagem mudou muito. Geralmente, os
próprios atores se maquiavam e exageravam
um pouco. No preto e branco, as mulheres ficavam
bonitas com a maquiagem carregada. Já com
a cor, podia ser bem menos. Era muito comum
você encontrar nos corredores as mulheres
muito maquiadas, cheias de sombra aqui, branco
ali, marrom acolá, uma coisa
estranhíssima.
- Na sua
opinião, quais seriam os marcos da
telenovela brasileira?
Eu estava fora do
Brasil quando se fez o "Beto Rockfeller", que
dizem ter sido o marco da telenovela brasileira.
Só vi dois capítulos e não
deu para ter uma idéia. Para mim, falta
consolidar o que é o caminho exato da
telenovela brasileira. Veja bem, uma das novelas
que eu reputo que não foi boa, realizada
por mim, é o maior sucesso no mundo
inteiro: "A Escrava Isaura". Por que ? Porque
é uma novela totalmente brasileira. A
telenovela não pode perder o romance para
não deixar de fazer sucesso; o quem vai
casar com quem, quem vai ficar com quem.
É do folhetim que as pessoas gostam. O
mau tem que fazer uma maldade em cada
capítulo, senão ele não
é mau. O bom tem que ser a vítima
a cada capítulo. Já bastam as
várias concessões que temos que
fazer, como o "raio" do
merchandising".
- Você
acha que atualmente a telenovela já
possui uma identidade própria?
Acho que ainda falta
uma identidade própria. Mas isto é
discutível porque lá fora as
telenovelas fazem um enorme e inegável
sucesso.
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